Bom, eu não tinha mais tempo para especulações. Era minha obrigação saber o que estava acontecendo. Afinal, era a minha reputação em jogo nessa história!
Deicidi que no outro dia procuraria o Ryan depois do teste e falaria com ele sobre essa situação. Ele não me pareceu nenhum pouco preocupado, mas eu estava uma "pilha de nervos".
Passei o resto do dia pensando nisso. E quando já estava me aprontando pra dormir, o pai chegou do trabalho e me deu uma notícia que exterminou com o pouco de paz e harmonia que ainda sentia dentro de mim.
- Querida, o senhor Brunelli ligou e disse que virá para o Brasil. Ele pretende passar as férias dele conosco. Ele virá com toda família, não é ótimo?
- Sério, pai? Que bom! - disse eu com "aquele" sorrisso angelical no rosto.
- Boa noite filha. Trate de dormir cedo!
Ãnh? Boa noite? Como o papai quer eu eu tenha boa noite? Não pelo Sr. e Sra. Brunelli, que são ótimos. Nem pela Brigitta, que é até legal. Mas é pelo Richelmo. Ou, como é conhecido, "Rick". Aquele garoto é insuportável. Quando morava em Canton, ele era o meu terror na escola. E agora ele viria para o Brasil e ficaria na minha casa. Era só o que faltava. Eu nunca mais tinha visto aquele garoto. E estava feliz por isso. Mas daqui a uma semana, ele estaria de novo na minha vida.
A noite foi mal dormida. Acordei cedo e ainda consegui tomar café com papai.
- Bom dia, amelie. Como está na escola?
- Está tudo bem.
- Hum... Ainda tem aulas com o professor Lorenzo?
"Ai, ai! O papai começou cedo com essa história da italianada dele!"
- Sim, papai. O professor Lorenzo ainda dá aulas pra mim.
- Ótimo professor! Já te disse que ele foi meu professor, né?
"Aposto que ele vai dizer: 'Colegial, ótima época'. Ele sempre diz isso quando algo lembra o colegial".
- Colegial...ótima época!- disse ele, como se ainda lembrasse do tempo de colegial.
- Ah, papai! O senhor disse ontem que os Brunelli viriam para férias aqui no Brasil. Isso seria quando?
- Ah, pois sim. Eles vêem próxima semana. Estou animado. Vou mostrar tudo para o Pietro.
"Oh, my God!"
-Oh, que bom!
Por um lado, eu acho até bom a presença dos Brunelli aqui em casa. Só assim o meu irmão, Tullio, deixa de pegar no meu pé. Ele se dá super bem com o Rick. Fazem a mesma faculdade (administração). Isso, por que os dois são descendentes de italianos e precisam assumir o negócio dos pais como bons filhos que são.
O papai tem uma sociedade com o Sr. Brunelli. Eles possuem uma multinacional têxtil. Fornecem para as grifes mais conhecidas e prestigiadas. Eles fazem parte do grupo dos bons italianos: os que não são da máfia. Eu sempre digo que o papai e o Sr. Brunelli são os únicos italianos que eu conheço que não teriam a mínima vocação para ser da máfia.
O vovô foi da Itália para os Estados Unidos ainda jovem, por que não teve coragem continuar na máfia. Encontrou um patrício, o senhor Contanzo Brunelli, pai do senhor Pietro Brunelli e decidiram fundar uma empresa têxtil. O senhor Constanzo era presbítero da igreja metodista e extremamente conservador. O vovô se tornou membro da igreja batista e ainda lembro o quanto ele se orgulhava disso. Assim começou a sociedade entre o papai e o senhor Pietro. Que são igualmente religiosos.
Voltando ao que, realmente, interessa, cheguei na escola atrasada para não ter que ouvir as piadinhas por muito tempo. Foi inevitável.
Entrei na sala e a professora Júlia já estava aplicando o teste de inglês. Terminei o teste em 20 minutos, mas não pude sair da sala. É necessário, pelo menos, uma hora para que um aluno seja liberado. Por isso, abaxei a minha cabeça para pensar no que diria para Ryan.
"Ryan, me eplique agora, por que você me beijou?"
"Não, muito agressivo"
"Ryan, por que esse beijo aconteceu? Você quis isso?"
"Dã, é claro que ele quis!"
"Ryan, ...aaaaaaaai, meu Deus, o que eu digo?"
Passado os quarenta minutos, eu fui liberada. Não foi uma boa idéia, toda escola sabia do beijo, então, fui para o banheiro. Fiquei por lá mais uma meia hora até que eu ouvi:
- Ami? Ami, tu tá aí? Eu sei que tu tá!- nunca pensei que ia gostar tanto de ouvir a voz da minha acéfala amiga, a Clara.
- Oi. Demorou, ein?
- Pois é. Eu tava passando umas pescas, já que tu não passou para ninguém. Ficou feito uma mongol lá. Fazendo umas caretas. Eu, ein!
- Ah, tava treinando como vou falar com o Ryan. Ele já saiu?
- Hum rum.- disse ela concordando com a cabeça.
- Ah,tá. Depois falo contigo.
- Espera, qual a respos...
Tinha que falar imediatamente com o Ryan. A gente já estava entrando de férias. E essa conversa não podia ficar pra depois. Avistei o Ryan conversando com os amigos e não podia dar uma de tímida. Cheguei lá no meio da rodinha e disse que queria conversar com ele.